Por toda vida!? Quantos já não usaram esta frase como expressão de uma convicção

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    Quantos já não usaram esta frase como expressão de uma convicção ou, também, de um espanto diante de uma realidade. Pensar algo, ou melhor, viver algo por toda vida nos tempos atuais – para muitos – é quase impensável, surreal ou utópico! Para muitos, o casamento, a família, os compromissos com o próximo e, até mesmo a vida consagrada, não passam de uma fase que devemos viver até certo ponto e, depois, deixarmos se, porventura, nos cansarmos da mesmice que pode nos trazer os compromissos duradouros, comprometimentos por toda vida.Não há uma solidez, um comprometimento, uma constância, mas, uma liquidez que não traz convicção, determinação e doação total.

    ZygmuntBauman, sociólogo polonês, diz que vivemos num tempo líquido. Mas o que seria este tempo líquido? Ou melhor esta época líquida?

Para ele,

a modernidade líquida é a época atual em que vivemos. É o conjunto de relações e instituições, além de sua lógica de operações, que se impõe e que dão base para a contemporaneidade. É uma época de liquidez, de fluidez, de volatilidade, de incerteza e insegurança. É nesta época que toda a fixidez e todos os referenciais morais da época anterior, denominada como modernidade sólida, são retiradas de palco para dar espaço à lógica do agora, do consumo, do gozo e da artificialidade.”

    Esta realidade líquida, que apresenta Bauman, não é distante da vida dos que querem se consagrar e daqueles que já são consagrados: seminaristas, noviços, noviças, postulantes, junioristas, padres, freiras e leigos consagrados nas novas comunidades. Isto se mostra pelo grande número de consagrados que deixam a vida consagrada e pela escassez de vocações sacerdotais e religiosas que se vive nos últimos tempos. Até mesmo, Papa Francisco, fala desta realidade, contudo, ao invés de usar a expressão por toda vida ele usa a expressão para sempre:

Disse que todos vós tendes vontade de dar a vida para sempre a Cristo! Agora vós aplaudis, fazeis festa, porque é tempo de núpcias… Mas quando acaba a lua de mel, o que acontece? Ouvi um seminarista, um bom seminarista, que dizia que queria seguir Cristo, mas por dez anos, e depois pensará em começar outra vida… Isto é perigoso! Ouçam bem: todos nós, também nós mais velhos, também nós, estamos sob a pressão desta cultura do provisório; e isto é perigoso, porque não se joga a vida de uma vez para sempre. Eu caso-me enquanto o amor dura; eu faço-me freira, mas por um «tempinho…», «um pouco de tempo», e depois verei; eu faço-me seminarista para ser padre, mas não sei como vai acabar a história. Não pode ser assim com Jesus! Eu não vos reprovo, reprovo esta cultura do provisório, que nos fustiga a todos, porque não nos faz bem: porque uma escolha definitiva hoje é muito difícil. Na minha juventude era mais fácil, porque a cultura favorecia uma escolha definitiva quer para a vida matrimonial, quer para a vida consagrada ou sacerdotal. Mas nesta época não é fácil uma opção definitiva. Somos vítimas desta cultura do provisório. Gostaria que pensásseis nisto: como posso libertar-me eu, homem ou mulher, desta cultura do provisório?”

    Muitos que se colocam na vida consagrada entram nesta dinâmica do provisório. Busca-se tudo, mas tudo superficialmente. Não há profundidade! Não há determinação, renúncia, sacrifício. Conversando certa vez com uma irmã que já há 28 anos está à frente da formação de sua congregação chegamos à conclusão que muitos abandonam por deixarem de fazer o que é próprio da consagração: troca-se o confessionário e a direção espiritual pela terapia; o Sacrário e o Rosário pela televisão e internet; a vida fraterna na comunidade que se pertence, pelo isolamento ou

    Não quero dizer que devemos excluí-la, pois é ciência, e como toda ciência, pode ajudar o ser humano. O problema está quando se substitui, abandona-se o primaz busca de compensações em outros grupos que não fazem mais parte da nossa vida de consagração com a desculpa que é preciso se relacionar, se abrir a todos, mas não se é capaz de se relacionar ou se abrir com os próprios irmãos de ministério, vida religiosa ou comunidade de consagrados. Não se tem relações profundas, somente conexões. A grande sacada desta palavra envolve a noção de que, em uma conexão, a vantagem não está só em ter várias conexões, mas, principalmente em conseguir desconectar sem grandes perdas ou custos.

    Toda essa crise, se assim pode-se dizer, também é fruto de uma grande secularização. Os consagrados, padres e religiosos secularizados são espinhosos, vazios, distantes, burgueses, mundanos, desacralizados, desacramentalizados, desespiritualizados. Esse tipo não gosta de estudar e não se interessa pelas virtudes e muitos menos pelo crescimento espiritual. Geralmente há uma migração do cérebro para o estômago ou para o entroncamento onde reside o mundo afetivo sexual.

    Em certa ocasião conversando com um Bispo amigo ele dizia que araiz de tudo, está na crise de fé e na idolatria da pós-modernidade, onde muitos trocam o Sacrário e o Templo pelas cristalinas “catedrais” dos shopings centers. A falta de fé produz o vazio interior que é preenchido por essas quimeras.  Bento XVI, delineou estes problemas com maestria e precisão nos seus intentos reflexivos.

    Além da fé esmaecida, temos ao lado disso a crise do humano e o descompasso de uma reta compreensão da vida e da existênciados consagrados neste mundo. Nunca o supérfluo tornou-se tão necessário na vida dos consagrados. A vida do encontro, do confronto, do sentido está sendo trocada pela vida do virtual, da indiferença, da falta de sentido, do egoísmo, do individualismo e, por fim da solidão. Estamos cada vez mais aparelhados com iPhones, tablets, notebooks, etc. Tudo para disfarçar o antigo medo da solidão. O contato via rede social tomou o lugar de boa parte das pessoas, cuja marca principal é a ausência de comprometimento. Muitos consagrados buscam tudo isso tentando encontrar a felicidade. Mas, como diz Sua Santidade o Papa Francisco,

sabemos que tudo isto pode satisfazer alguns desejos, dar algumas emoções, mas no final é uma felicidade que permanece na superfície, não desce ao íntimo, não é uma felicidade íntima: é a sensação de um momento que não dá a verdadeira felicidade. A felicidade não é a emoção de um momento: é outra coisa! A verdadeira felicidade não vem das coisas, do ter, não! Nasce do encontro, da relação com os demais, nasce do sentir-se aceite, compreendido, amado e do aceitar, do compreender e do amar: e isto não pelo interesse de um momento, mas porque o outro, a outra é uma pessoa. A felicidade nasce da gratuidade de um encontro! É ouvir-se dizer: «Tu és um bem para mim», não necessariamente com palavras, mas com a presença que vê, sente e da segurança.

Só se conseguirá encontrar uma verdadeira felicidade, um verdadeiro sentido, um viver por toda vida uma consagração quando o virtual não substituir o presencial; quando o essencial não for engolido pelo existencial; quando o espiritual não for trocado pelo material; quando a solidez não ceder lugar a liquidez; quando o absoluto não for descartado pelo relativo; quando o substancial não foi mais desejado que o acidental e, por fim, quando se encontrar no amor de Deus um repouso que não tem necessidade do amanhã.

Pe. Rogério Alves Gomes

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